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SEGUNDA VISÃO

- A Criação e a Queda -

Então eu vi como se fosse uma grande multidão de lâmpadas vivas muito brilhantes, que recebiam ardente brilho e adquiriam um claro esplendor. E eis que apareceu um buraco de grande largura e profundidade, com uma boca como a boca de um poço, que emitia fumaça ardente com grande mau cheiro, do qual se espalhou uma repugnante nuvem que assumiu uma forma enganadora, como uma veia. E, em uma região de luminosidade, ele soprou sobre uma nuvem branca que brotara de uma maravilhosa forma humana e continha dentro de si muitas e muitas estrelas, e em assim fazendo, expulsou daquela região tanto a nuvem branca quanto a forma humana. Quando isso foi feito, um luminoso esplendor rodeou aquela região, e todos os elementos do mundo, que antes haviam existido em grande tranquilidade foram lançados na maior agitação e mostravam horrendos terrores. E, mais uma vez, ouvi aquele que me havia falado anteriormente, a dizer:

1 Nenhum impulso injusto afasta os anjos abençoados do amor e do louvor de Deus

Nenhum impulso de injustiça faz recuar aterrorizados aqueles que seguem a Deus com fiel devoção e ardem de amor digno através da afeição por ele, advinda da glória da bem-aventurança celestial; em contrapartida, aqueles que servem a Deus de forma meramente fingida não apenas não conseguem avançar para coisas maiores, mas, por justo julgamento, são lançados fora das coisas que eles erroneamente supõem possuir.

Isso é mostrado pela grande multidão de lâmpadas vivas muito brilhantes; elas são o vasto exército de espíritos celestes, brilhando na abençoada vida e vivendo em grande beleza e ornamento, porque quando eles foram criados por Deus, eles não se agarraram à exaltação orgulhosa, mas persistiram vigorosamente no amor divino.

Pois, recebendo ardente brilho, adquiriram um claro esplendor, porque quando Lúcifer e seus seguidores tentaram rebelar-se contra o supremo Criador, eles, com zelo por Deus na queda dele e de seus seguidores, revestiram-se da vigilância do divino amor, enquanto os outros, não querendo conhecer a Deus, abraçaram o torpor da ignorância. De que maneira?

Na queda do diabo, grande louvor irrompeu destes espíritos angélicos que perseveraram na retidão com Deus, porque, com o olhar mais perspicaz, eles souberam que Deus continua inamovível, sem nenhuma alteração de qualquer mutabilidade em seu poder, de modo que nenhum guerreiro jamais poderá vencê-lo. E assim, ardendo em seu amor e perseverando na justiça, eles desprezaram todo o pó da injustiça.

2 Lúcifer, orgulhoso de sua beleza e poder, foi expulso do céu

Mas Lúcifer, que devido a seu orgulho foi expulso da glória celestial, era tão grande no momento de sua criação que não sentia nenhum defeito nem em sua beleza, nem em sua força.

Daí, quando ele contemplou sua beleza, e quando considerou em si mesmo o poder de sua força, descobriu o orgulho, que lhe prometeu que ele podia começar o que desejasse, porque podia alcançar o que começara.

E, vendo um lugar onde ele pensou que pudesse viver, querendo ali mostrar sua beleza e poder, falou dentro de si mesmo a respeito de Deus da seguinte maneira: “Quero brilhar lá como ele o faz aqui!”. E todo o seu exército anuiu dizendo: “O que desejas, também desejamos”.

E quando, excitado pelo orgulho, tentou alcançar o que concebera, os ciúmes do Senhor, estendendo-se em flamejante escuridão, precipitaram-no com todo o seu séquito, de modo que eles se tornaram ardentes, em vez de brilhantes, e escuros em vez de claros. Por que isso aconteceu? 

3 Deus teria sido injusto se não os tivesse precipitado

Se Deus não tivesse despenhado a presunção deles, ele teria sido injusto, visto que ele teria acalentado aqueles que desejavam dividir a totalidade da divindade.

Mas ele os abismou e reduziu a nada a impiedade deles, na medida em que ele afasta da visão de sua glória todos os que tentam opor-se a ele, como meu servo Jó mostra quando diz:

4 Palavras de Jó a esse respeito

A lâmpada dos ímpios extinguir-se-á e um dilúvio virá sobre eles; e ele distribuirá as aflições de sua ira. Eles serão palha diante do vento, e fagulhas dispersas pelo redemoinho” (Jó 21,17-18).

Isso significa a flagrante imundície da libertina maldade que emerge da falsa prosperidade, como uma marca distintiva na vontade carnal daqueles que não temem a Deus, mas menosprezam-no em perversa ira, desdenhando saber que qualquer um pode vencê-los, ao passo que, no fogo de sua ferocidade, eles querem consumir o que quer que se lhes oponha.

Na hora da vingança de Deus, essa imundície será calcada sob os pés como sujeira; e pelo supremo julgamento, esses ímpios serão arrojados na ira por todos aqueles que estão sob o céu, porque eles são nocivos tanto para Deus quanto para os humanos.

Portanto, visto que Deus não lhes permite ter o que querem, são dispersos por toda parte entre povos, atormentados por dor na ira de sua loucura, porque eles ardem para possuir o que Deus não lhes permite devorar.

E dado que eles, desse modo, afastam-se de Deus, tornam-se inteiramente inúteis, incapazes de fazer algo de bom quer para Deus, quer para a humanidade, decepados da linhagem da vida pelo olhar previdente da contemplação de Deus.

Razão pela qual eles são entregues a miséria, desperdiçando à si mesmos no sabor insípido da má fama, visto que eles não recebem a chuva torrencial do Espírito Santo.

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