IMG_6823A Ordem de São Bento ou Ordem Beneditina (em Latim: Ordo Sancti Benedicti, sigla O.S.B.) é a mais antiga ordem religiosa católica de clausura monástica1 que se baseia na observância dos preceitos destinados a regular a convivência social e que segue o lema Ora et Labora, ou seja, Ore e Trabalhe. Esta ordem é considerada como a iniciadora do chamado movimento monacal. Santa Hildegarda de Bingen foi uma religiosa beneditina.

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Dia de outono sobre a Abadia beneditina de Santa Hildegarda de Bingen, em Rüdesheim am Rhein, na Alemanha

A Regula Benedicti foi composta em 629 para a abadia de Monte de Cassino, na Itália, por São Bento de Núrsia (480-547), irmão gêmeo de Santa Escolástica.

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São Bento e sua irmã, Santa Escolástica. Imagens do Mosteiro Beneditino São João, em Campos do Jordão, SP (Brasil)

Esta regra preceituava a pobreza, a virgindade, a obediência, a oração e o trabalho, bem como a obrigação de hospedar peregrinos e viajantes em seus mosteiros, dar assistência aos pobres e promover o ensino. Por este último motivo, ao lado dos seus mosteiros, havia sempre uma escola, razão pela qual ainda, a ordem tornou-se um dos centros culturais da Idade Média, onde suas bibliotecas reuniam o que ainda restara das obras e ensinamentos da Antiguidade.

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São Bento ensinando a regra que, mais tarde, levaria o seu nome: Regra de São Bento

Antes de São Bento, já existiam comunidades dedicadas ao serviço religioso, mas nunca tinham sido enquadradas num pensamento filosófico religioso. Foi este tipo de inovação que São Bento de Núrsia trouxe. Na verdade, ele não fundou exatamente uma nova ordem, mas aglomerou um conjunto de mosteiros, já existentes, na sua perspectiva de vida casta, em comunidade, com outros religiosos que partilhavam da mesma doutrina e filosofia de vida. A Regra de São Bento regia até o mais ínfimo pormenor, a vida de um monge.

Seria apenas após a sua morte, que os mosteiros que seguiam a sua doutrina começaram a ser conhecidos como beneditinos, o que eventualmente iria originar a Ordem de São Bento. São Bento promoveu uma filosofia de vida cristã, que foi amplamente aceita, e que originaria uma ordem monástica. São Bento foi o fundador intelectual da ordem, lançando os princípios morais para a criação da mesma.

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Abadia beneditina de Cluny, na França 

 Devido à eventual decadência da disciplina no interior dos mosteiros ao longo dos séculos e tambem à sua atuação e influências políticas, a Ordem sofreu algumas reformas,  sendo a primeira delas (no século X) denominada cluniacense por causa de Cluny, localidade, na França, onde se fundou o primeiro mosteiro reformado.

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Interior da Abadia de Cluny

Os cluniacenses adquiriram grande poder econômico e político e os abades mais importantes chegaram a fazer parte das cortes imperiais e papais. Tanta influência e poder políticos levaram, mais a vez, à desvirtuar a Ordem de São Bento, o que conduziu à outra reforma na Ordem, desta vez em Cister, outra localidade na França, local onde foi fundado o primeiro mosteiro desta reforma que buscava afastar-se do estilo cluniacense, que caíra na indisciplina e no relaxamento da vida monástica. O principal objetivo dos fundadoresde Cister foi impor a prática estrita da Regra de São Bento, ou seja, seguir literalmente a Regra de São Bento e o regresso à vida contemplativa. O principal impulsionador dessa reforma foi São Bernardo de Claraval4 (1090-1153), que foi discípulo dos fundadores de Cister, tendo ingressado ali por volta de 1108. 

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Abadia cisterciense de Lérins, na Côte d'Azur

A reforma cisterciense subsiste até hoje como ordem beneditina independente, dividida igualmente em dois ramos: a Ordem Cisterciense da Comum Observância (O. Cist.) e a Ordem Cisterciense da Estrita Observância (O.C.S.O.), também conhecidos como trapistas. Estes monges são chamados também "beneditinos brancos", devido à cor do seu hábito religioso, em contraste com os demais monges da Ordem de São Bento, chamados de "beneditinos negros".

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Abadia trapista de Sept-Fons, na França 

Outras reformassurgiram no decurso da Idade Média, mas as alterações econômicas e políticas, a partir dos séculos XV e XVI, levaram a uma redução drástica do número de indivíduos interessados numa vida monástica. 

Após agitados períodos da história, como a Reforma6 na Alemanha e nos Países Baixos; a expulsão ou execução de religiosos católicos pelo Rei Henrique VIIIna Inglaterra; a Revolução Francesae a decadência da disciplina nos mosteiros, ocorreu uma redução drástica da população de monges. Após a Revolução Francesa,  Dom Prosper Guéranger fez renascer a ordem beneditina em Solesmes9, na França, partir de 1833.

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Religiosos beneditinos de Solesmes

Atualmente, a Ordem de São Bento encontra-se espalhada em diversas partes do mundo, mantendo a sua vocação religiosa, e promovendo o ensino e assistência segundo o desejo de seu fundador.

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Abadia beneditina de Santa Hildegarda e suas vinhas

Notas:

1. Esta expressão indica a forma de vida que levam os monges (no caso dos homens) e monjas (no caso das mulheres) de clausura em referência ao voto religioso que lhes deu a obrigação de não mais saírem do seu mosteiro ou convento; o outro tipo de Cleto consagrado das ordens religiosas que não tenha feito esse voto de clausura poderá desempenhar atividades no exterior. A clausura tem a finalidade de manter entre os religiosos um clima de recolhimento, de silêncio, de oração e de outros recursos ascéticos, para uma mais perfeita busca de união mística com Deus. Contudo, e apesar desta separação física com "o mundo", os religiosos pretendem manter-se intimamente unidos à Humanidade e aos seus respectivos problemas através das suas orações contínuas oferecidas como intercessão. Disso mesmo pode observar-se o exemplo de Santa Terezinha do Menino Jesus que nunca saiu do seu convento em França, mas foi considerada como padroeira das missões;

2. Escolástica e Bento nasceram na cidade de Nórcia, no centro da Itália, no ano 480. Filhos de família rica e nobre, sofreram uma grande perda logo ao nascer, pois a mãe faleceu no parto. Apesar da ausência da mãe, receberam educação primorosa e sólida formação na fé cristã. Tanto que Santa Escolástica, quando era ainda muito jovem, e antes mesmo de se tornar monja, decidiu consagrar-se totalmente a Deus com o voto de castidade. O voto de castidade feito por Santa Escolástica antes mesmo de se tornar freira, mostra a certeza de sua vocação. Porém, ela ainda não sabia como deveria viver este chamado profundo que Deus lhe fizera. No tempo de seu amadurecimento vocacional, seu irmão, São Bento, fundou a Ordem Beneditina e o primeiro mosteiro cristão do Ocidente. A regra de vida dos beneditinos era a inspiração que faltava para Santa Escolástica discernir por completo sua vocação. Assim, ela seguiu os passos do irmão e fundou o ramo feminino da Ordem Beneditina. Um pequeno grupo de moças a acompanhou nesta jornada. Santa Escolástica contou com toda a ajuda do irmão no que diz respeito à adaptação da regra de vida dos beneditinos ao modo de ser feminino. Assim nasceu o primeiro mosteiro cristão feminino do Ocidente, fundamentado, principalmente, na vida em comunidade e no princípio “Ora et Labora” (oração e Trabalho) criado por São Bento. Até então, monges e monjas eram eremitas que viviam isolados, sem uma vida em comunidade. Já os beneditinos viviam com horários e atividades bem definidos ao longo de todo o dia. O mosteiro das beneditinas, que começou pequeno, logo floresceu e várias moças começaram a procura-lo para ali ingressarem e viverem a consagração total a Deus na oração, no trabalho, no estudo e na vida em comunidade, ajudando, compartilhando e suportando umas às outras com caridade e amor cristãs. A relação de Santa Escolástica com seu irmão gêmeo São Bento, era profunda. Havia entre eles uma ligação inspiradora. Os mosteiros masculino e feminino ficavam pertos um do outro. Porém, os dois irmão só se viam uma vez por ano, no tempo da Páscoa, por causa das regras de vida e das mortificações que se impunham. Certa vez, num desses encontros em que estavam São Bento, Santa Escolástica e mais alguns monges e monjas dos dois mosteiros, eles passaram o dia conversando sobre as coisas espirituais e as riquezas do Reino dos Céus. Ao anoitecer, São Bento, rígido, avisou que era hora de voltarem para seus mosteiros. Santa Escolástica, porém, insistia em ficar mais, pois o crescimento espiritual e o colóquio entre os irmãos estavam preenchendo sua alma. São Bento, porém, permanecia irredutível. Então, Santa Escolástica orou pedindo ajuda a Deus, Nesse momento caiu uma chuva torrencial que impedia a todos de irem embora. Assim, permaneceram toda a noite ali, partilhando as coisas Deus e rezando. Ao amanhecer, todos foram para seus mosteiros. Três dias depois Santa Escolástica faleceu. São Bento, em oração, viu o espírito da irmã, como uma pomba, entrar no paraíso. Por isso, Santa Escolástica é representada com uma pomba branca na mão ou no peito. Era o dia 10 de fevereiro do ano 547. São Bento sepultou a irmã no túmulo que ele tinha preparado para sua própria sepultura. Quarenta dias após a morte da irmã, era a vez de São Bento ser levado para o céu. Ele faleceu no mosteiro que fundara, levando para Deus uma vida santa. A mensagem e a forma de vida de São Bento e de Santa Escolástica influenciaram todo o Ocidente cristão. Das Ordens religiosas criadas por eles, várias outras foram criadas, todas vivendo sob a regra de vida baseada no lema “Oração e Trabalho”.

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Oração a Santa Escolástica: “Ó Deus, Pai de misericórdia, Santa Escolástica mostrou que nossa missão é servir, é carregar os fardos uns dos outros, é promover a harmonia e a paz entre todos os homens. Dá-nos compreender em profundidade esses teus desígnios, para que nos aproximemos de Ti, para que Te reconheçamos nos irmãos e para que Te louvemos e bendigamos sem cessar. Amém.”

3. São Roberto de Molesmes, Santo Estêvão Harding e São Roberto de Chaise-Dieu foram os fundadores da Abadia de Cister em 1098;

4. Bernardo de Claraval (Bernard de Clairvaux) foi um abade francês  e o principal responsável por reformar a Ordem Cisterciana, na qual entrou logo depois da morte de sua mãe. Foi o fundador da Abadia de Claraval (Clairvaux), na Diocesa de Langres. São Bernardo de Claraval converteu-se no principal conselheiro dos papas e vários dos seus monges chegaram igualmente a ocupar a sede pontifícia. Ao falecer, levava fundados 68 mosteiros da sua ordem. Santa Hildegarda de Bingen trocou correspondência com São Bernardo de Clataval durante muito tempo e também recorreu à ele para que a aconselhasse; 

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5. Durante a idade Média, surgiram outras reformas importantes da ordem Beneditina. A de São Romualdo (†1027), que deu começo à Reforma Camaldulense. Essa reforma subsiste até hoje em dois ramos: a primeira faz parte da confederação Beneditina (beneditinos negros); a segunda é independente, mas rege-se igualmente pela regra de São Bento. Outra reforma importante foi a empreendida por São João Gualberto (†1073), que fundou os beneditinos de Valle Umbrosa (valombrosianos), pelo lugar na Itália em que se construiu o primeiro mosteiro desta reforma; é igualmente, hoje em dia, uma congregação da Confederação Beneditina. A reforma de São Silvestre Gozzolini (1177-1267), fundou os beneditinos de Montefano (silvestrinos), que subsiste também hoje como congregação associada à confederação Beneditina. A reforma do beato Bernardo Tolomei (1272-1348) deu origem aos beneditinos de Monte Oliveto (olivetanos), hoje também parte integrante da Confederação Beneditina; .

6Reforma Protestante foi um movimento reformista cristão do século XVI liderado por Martinho Lutero, simbolizado pela publicação de suas 95 Teses em 31 de outubro de 1517 na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. Tendo por ponto de partida as críticas às vendas de indulgências, o movimento de Lutero tornou-se conhecido como um protesto contra os abusos do clero, evoluindo para uma proposta de reforma no catolicismo romano a partir da mudança em diversos pontos da doutrina da Igreja Católica Romana, com base no que Lutero entendia como um retorno às escrituras sagradas. O resultado da Reforma Protestante foi a divisão da chamada Igreja do Ocidente entre os católicos romanos e os reformados ou protestantes, originando o protestantismo;

7. Embora Henrique VIII tivesse defendido a Igreja Romana, mais tarde ele promoveu a Reforma Inglesa para satisfazer as suas necessidades políticas e pessoais. Sendo este casado com Catarina de Aragão, que não lhe havia dado filho homem, Henrique solicitou ao papa Clemente VII a anulação do casamento. Perante a recusa do papado, Henrique fez-se proclamar, em 1531, protetor da Igreja inglesa. O "Ato de Supremacia", votado no parlamento em novembro de 1534, colocou Henrique e os seus sucessores na liderança da igreja, nascendo assim o anglicismo. Os súditos deveriam submeter-se ou então seriam excomungados, perseguidos e executados, tribunais religiosos foram instaurados e católicos foram obrigados à assistir cultos protestantes, muitos importantes opositores foram mortos, tais como Thomas More, o bispo John Fisher e alguns sacerdotes, frades franciscanos e monges cartuxos. Quando Henrique foi sucedido pelo seu filho Eduardo VI em 1547, os protestantes viram-se em ascensão no governo. Uma reforma mais radical foi imposta diferenciando o anglicanismo ainda mais do catolicismo romano;

8. A Revolução Francesa perseguiu a Igreja e quem dela fizesse parte, porém, apenas afirmar que a Revolução Francesa perseguiu a religião não é de todo correto. Muitos que fazem essa afirmação supõem ou tentam fazer pensar que os revolucionários tinham os nobres planos de construir uma sociedade laica na qual os segmentos religiosos não tivessem privilégios nem fossem relevantes na vida pública. Não é esta a verdade objetiva. O que os revolucionários realmente tentaram foi substituir as religiões históricas por uma “religião de Estado”, com suas próprias pretensões teológicas, funcionários, elites e privilégios, visando assegurar que os cidadãos se submetessem à lei não apenas no comportamento externo, mas inclusive na consciência e no coração. A lei é que seria “deus";

9A Abadia de Solesmes é um mosteiro beneditino localizado em Solesmes, na região de Sarthe (França). Ele é famoso pela restauração da vida monástica beneditina e preservação do canto gregoriano, na França. É a casa-madre da Congregação de Solesmes.

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Abadia beneditina de Solesmes, na região da Sarthe, França 

Bibliografia:

- Texto de Gonçalo Ferreira: 

http://knoow.net/religioes/catolica/ordem-sao-bento-beneditina/

- BERLIOZ, Jacques; Monges e Religiosos na Idade Média, Terramar, 1999

- LEBRUN, François; As grandes datas do cristianismo, Editorial Notícias, 1992

- Wikipédia 

- Aletéia: pt.aleteia.org

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