IMG_6970DECLARAÇÃO

Estas são visões verdadeiras que brotam de Deus. Eis aqui!

No quadragésimo terceiro ano de meu percurso terrestre, quando eu estava observando com grande temor e trêmula atenção a visão celeste, vi um grande esplendor no qual ressoava uma voz do Céu, a dizer-me:

"Ó frágil humano, cinzas das cinzas, e imundície da imundície! Dize e escreve o que vês e ouves. Contudo, visto que és tímido no falar e simples na exposição, e iletrado no escrever, fala e escreve estas coisas não por uma boca humana e não pela compreensão da invenção humana, e não por exigências de composição humana, mas como as vês e as ouves no alto dos lugares celestes, nas maravilhas de Deus. Explica estas coisas de tal modo que o ouvinte, recebendo as palavras de seu instrutor, possa expô-las naquelas palavras, de acordo com aquela vontade, visão e instrução. Assim, portanto, ó humano, fala estas coisas que vês e ouves. E escreve-as não por ti mesmo ou por qualquer ser humano, mas pela vontade daquele que sabe, vê e dispõe de todas as coisas no segredo de seus mistérios."

E mais uma vez ouvi a voz do céu dizendo-me:

“Fala, portanto, destas maravilhas e, sendo assim instruído, escreve-as e fala”.

Aconteceu que, no ano 1141 da Encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo, quando eu tinha quarenta e dois anos e sete meses de idade, o céu abriu-se e uma luz fulgurante de brilho excepcional veio e pervagou todo o meu cérebro e inflamou todo o meu coração e todo o meu peito, não como um ardor, mas como uma cálida chama, como o sol aquece qualquer coisa que seus raios tocam. E imediatamente eu soube o significado da explicação das Escrituras, isto é, do Saltério, do Evangelho e de outros livros católicos, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, embora eu não tivesse a interpretação das palavras de seus textos ou a divisão das sílabas ou o conhecimento dos casos ou tempos.

Contudo, eu havia sentido maravilhosamente em mim mesma o poder e o mistério das secretas e admiráveis visões de minha infância – ou seja, dos meus cinco anos – até aquele momento, como o faço agora. Isso, porém, não mostrei a ninguém, exceto a algumas pessoas religiosas que estavam vivendo da mesma maneira que eu; mas, entrementes, até o tempo em que Deus, por sua graça, quis que fosse manifestado, eu ocultei-o em tranquilo silêncio.

Mas as visões que tive não as percebi em sonhos, ou no sono, ou em delírio, ou pelos olhos do corpo, ou pelos ouvidos do ser exterior, ou em lugares ocultos; recebi-as, pois, estando desperta e enxergando com mente pura e com os olhos e ouvidos do ser interior, em lugares abertos, conforme Deus o queria. Como isso poderia ser é difícil para a carne mortal compreender.

Todavia, quando havia saído da infância e chegado à idade da plena maturidade mencionada acima, ouvia uma voz vinda do céu dizendo:

"Sou a Luz Vivente, aquele que ilumina a escuridão. A pessoa [Hildegarda] que eu escolhi e a quem atingi miraculosamente conforme eu quis, coloquei entre grandes maravilhas, além da medida dos antigos povos que viram em mim muitos segredos; mas eu a rebaixei sobre a terra, a fim de que não pudesse colocar-se em espírito de arrogância. O mundo não tinha tido nela nenhuma alegria ou licenciosidade ou uso de coisas mundanas, pois eu a subtraí ao atrevimento insolente, e ela sente medo e é tímida em suas obras. Com efeito, ela sofre no mais íntimo de seu ser e nas veias de sua carne; ela é afligida no espírito e nos sentidos, e padece grande dor corporal, porque nenhuma segurança fez moradia nela, mas em todos os seus empreendimentos, ela se tem julgado culpada. De fato, fechei as rachaduras de seu coração, para que seu espírito não se exalte no orgulho ou na vanglória, mas possa sentir temor e pesar, em vez de alegria e libertinagem. Por conseguinte, em meu amor, ela buscou em sua mente como no lugar onde pudesse encontrar alguém que correria pela senda da salvação. E ela encontrou tal pessoa e amou-a [o monge Volmar de Disibodenberg], sabendo que ele era um homem fiel, trabalhando como ela própria em outra parte da obra que conduz a mim. E, apegando-se a ele, trabalhou com ele com grande zelo, de modo que meus milagres ocultos pudessem ser revelados. E ela não buscou exaltar-se acima de si mesma, mas com muitos suspiros, inclinou-se diante daquele que ela encontrou na ascensão da humildade e na intenção da boa vontade.

Ó humano, que recebes estas coisas designadas a manifestar o que está oculto não na inquietude do engano, mas na pureza da simplicidade, escreve, portanto, as coisas que vês e ouves. Eu, porém, embora visse e ouvisse estas coisas, recusei-me escrever por muito tempo, em meio à dúvida e à má opinião e à diversidade das palavras humanas, não com obstinação, mas no exercício da humildade, até que, rebaixada pelo flagelo de Deus, caí num leito de enfermidade; então, impulsionada, enfim, por muitas doenças, e pelo testemunho de certa nobre serva de boa conduta [a irmã Richardis de Stade] e daquele homem a quem busquei secretamente e encontrei, conforme mencionado acima, pus minha mão a escrever.

Enquanto eu o fazia, senti, como aludi anteriormente, a imensa profundidade da explanação escriturística; e, reerguendo-me da enfermidade pela força que recebi, levei esta obra à conclusão –embora apenas precariamente - em dez anos. Estas visões aconteceram e estas palavras foram escritas nos dias de Henrique, arcebispo de Mogúncia, e de Conrado, rei dos romanos, e de Cuno, abade de Disibodenberg, sob o Papa Eugênio.

E promulguei e escrevi estas coisas não pela invenção de meu coração ou de qualquer outra pessoa, mas como pelos mistérios secretos de Deus, eu ouvi-as e recebi-as nos lugares celestiais.

E, mais uma vez, ouvia a voz do céu dizendo-me:

“Grita, portanto, e escreve assim!”

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